
Meu pai estava ali. Nunca me senti muito bem em sua presença, desde sempre. A grande verdade é que não havia nada de intimidador em sua figura, mas sempre pensei em minha mãe, no que ele disse a ela assim que soube que estava grávida, e na réplica. Risos internos me corroíam querendo sair, lembrando do "Eu o educarei sozinha, FILHO DA PUTA!!". Modéstia a parte ela o fez muito bem. "- Oi Lipe! Como vai filho??" -Vou bem, e você...pai. Nem eu esperava aquele pai, tão pequeno, tão bruto, tão não de mim. A conversa foi fluindo, a faculdade entrou no assunto, tudo foi sendo discutido...tudo o que é discutido com uma pessoa com a qual não se tem muito contato. Ele saiu. Ele estava meio alegre, rosado (pois é, meu pai é branco, SUPER branco....é, eu sei.), acho que estava meio bêbado, mas era mais encantador, mais sedutor... meu pai era um homem...galante. Agora consegui ver como ele havia conseguido conquistar minha mãe: mulher forte, uma mistura de tudo de bom e santo com uma armadura de ferro protegendo tudo... a imagem de headbanger do meu pai também escondia algo: um hippie muito louco que era cavalheiro, doce e risonho... Um doce sorriso. Não havia nada do que se ressentir. Como um estalo, me lembrei de todas as vezes que eu tinha chegado a essa conclusão, de que a muralha era tão inútil quanto o ressentimento que eu alimentava. A muralha havia caído, porque não havia mais meio e nem porque para ela se manter em pé. Hora do almoço. Me desvencilhei dos discos do Metallica e da Nina Hagen, lavei as mãos e fui almoçar. Hora de ir. Saí dali me sentindo privilegiado... me sentindo filho de uma uma santa e de um louco. De uma deusa e do mais inteligente mortal. Saí dali com o grande privilégio de saber que fazia parte dali, que fazia parte daquele grande bando de desajustados, que fazia parte daquela família. Os meus espinhos...fui retirando: um a um. Fui usando no caminho da conversa, marcando cada ponto de mim, nele. Mais uma vez, consegui me encaixar e fazer do meu ressentimento uma grande risada; perceber o valor incrível de minha mãe, que fez isso toda a sua vida, mas de uma uma forma menos egoísta: transformava seu ressentimento em bondade. Consegui me libertar das últimas chagas que assolavam meu peito, lembrar da rosa que eu amava e ainda me lembrar que eu tinha uma vó que precisava visitar e principalmente, saber que fazia parte dali. meus espinhos... usarei todos para pontuar...achei divertido. =')



